Ortorexia Nervosa e Vegetarianismo
- Giulia Bestetti
- 15 de jul. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de jun. de 2022
Por Giulia Cazzetta Bestetti e Fernanda Timerman (nutricionistas)
Revisão de texto: Alessandra Peixoto (comunicadora e, num futuro próximo, nutricionista).
Texto retirado e adaptado de: https://www.genta.com.br/ortorexia-nervosa-e-vegetarianismo/

Têm tido um aumento muito expressivo na quantidade de vegetarianos e veganos: no Brasil, houve um crescimento de 75% de adeptos do vegetarianismo entre 2012 e 2018. Esse movimento pode ser muito bacana por suas motivações políticas, ambientais e éticas. Mas, é importante perceber também a correlação da adoção dessas dietas com um perfil de comer transtornado ou até um transtorno alimentar (TA), como é o caso da Ortorexia Nervosa.
O vegetarianismo, segundo a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), é um regime alimentar que exclui os produtos de origem animal. Existem várias classificações de acordo com o grau de restrição do padrão alimentar, que leva em conta a ingestão (ou não) de ovos, leite, mel, etc, sendo que aqueles que não consomem nenhum alimento derivado de animais são chamados vegetarianos estritos. Não é o mesmo que veganos, apesar dos termos se confundirem até mesmo na literatura: esses seriam aqueles que abrem mão de produtos testados em animais ou feitos com couro, por exemplo. Ou seja: suas escolhas vão além do prato.
E o que isso tem a ver com a Ortorexia Nervosa (ON)? Esse possível novo TA (Łucka et al, 2019), que ainda está em discussão, é caracterizado como uma obsessão patológica com o alimento biologicamente puro, acarretando restrições alimentares importantes. Na ON, as escolhas seriam feitas em função de uma preocupação exagerada com a qualidade dos alimentos, a pureza da dieta (livre de herbicidas, pesticidas e outras substâncias artificiais) e o “politicamente correto e saudável” (Alvarenga, 2020).
Sua classificação enquanto transtorno não é “oficial” por não constar nos manuais diagnósticos, mas é provável que ela se encaixe no espectro dos TA (Łucka e colaboradores, 2019). E é possível que indivíduos que sofrem com ela acabem adotando o padrão de dieta vegetariano por ele estar de acordo com as regras nutricionais que eles se impõem. Inclusive, mais indivíduos com TA relatam já terem aderido a uma dieta vegetariana ou vegana por ser uma forma mais socialmente aceita de evitar a comida (Bardone-Cone e colaboradores, 2012).
Em uma pesquisa que realizei, investiguei a relação entre a Ortorexia Nervosa e o vegetarianismo. Nesse trabalho revisei os artigos que existem sobre o tema e os resultados foram unânimes: vegetarianos e veganos têm maior risco de Ortorexia Nervosa quando comparados a onívoros.
Isso não significa que as pessoas não podem mudar o padrão da sua dieta ou seu estilo de vida de maneira genuína, mas que é importante ficar atento aos porquês dessas escolhas.
Uma forma de distinguir motivações é perceber se o paciente entende a necessidade de aumentar a quantidade de comida que ingere para suprir sua demanda nutricional.
“Os benefícios clínicos, emocionais e ambientais da adoção do vegetarianismo são incontestáveis. Porém, em pessoas que já apresentem sinais de risco para TA, ela pode ser uma forma socialmente aceita de restringir ainda mais a alimentação e gerar ainda mais obsessão, regras e ansiedade na relação com a comida.”
Referências
Sociedade Vegetariana Brasileira. Vegetarianismo. 2017. Disponível em : https://www.svb.org.br/vegetarianismo1/o-que-e.
Melina V, Craig W, Levin S. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets [internet]. J Acad Nutr Diet. 2016;116(12):1970-1980.
Fox N, Ward K. Health, ethics and environment: a qualitative study of vegetarian motivations [internet]. Appetite. 2008;50(2-3):422-9.
Alvarenga M, Dunker KLL, Philippi ST. Transtornos alimentares e Nutrição: da prevenção ao tratamento. Tamboré: Manole; 2020
Bardone-Cone AM, Fitzsimmons-Craft EE, Harney MB, Maldonado CR, Lawson MA, Smith R, Robinson DP. The inter-relationships between vegetarianism and eating disorders among females [internet]. J Acad Nutr Diet. 2012;112(8):1247-52.
Łucka I, Janikowska-Hołoweńko D, Domarecki P, Plenikowska-Ślusarz T, Domarecka M. Orthorexia nervosa – a separate clinical entity, a part of eating disorder spectrum or another manifestation of obsessive-compulsive disorder? [internet]. Psychiatr Pol. 2019;53(2):371-382.
Bardone-Cone AM, Fitzsimmons-Craft EE, Harney MB, Maldonado CR, Lawson MA, Smith R, Robinson DP. The inter-relationships between vegetarianism and eating disorders among females. J Acad Nutr Diet. 2012 Aug;112(8):1247-52. doi: 10.1016/j.jand.2012.05.007. PMID: 22818732; PMCID: PMC3402905.
Link para o artigo: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3402905/
Robinson-O’Brien R, Perry CL, Wall MM, Story M, Neumark-Sztainer D. Adolescent and young adult vegetarianism: better dietary intake and weight outcomes but increased risk of disordered eating behaviors. J Am Diet Assoc. 2009 Apr;109(4):648-55. doi: 10.1016/j.jada.2008.12.014. PMID: 19328260.
Link para o artigo: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19328260/
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